


Huis Clos é um espectáculo de teatro a partir de uma peça de teatro. Desde Os Justos, estreado em 2004, não fazíamos uma peça. Temos vindo a adoptar materiais não-dramáticos como ponto de partida e a fazer depender da natureza desses materiais a resolução dos espectáculos. Uma colecção de selos, o registo áudio de um jantar preparado conjuntamente por três amigas, documentários sobre violência e sobre catástrofes, um ensaio de Walter Benjamin, os grandes discursos políticos da História, um conjunto de cerca de 2000 bibelots. Em Huis Clos, entre o divertimento de regressar a um modo de fazer canónico e a desconfiança em relação a esse cânone, propusemo-nos um exercício de equilibrismo. Apresentar o texto como uma obra de literatura que se basta a si mesma ou diluí-lo numa “encenação”. A possibilidade de uma representação verosímil, que se tenta aproximar do virtuosismo, ou a cena apresentada como infra-estrutura. A movimentação emocional do triângulo de personagens ou o carácter esquemático, quase matemático, do texto de Sartre.
texto Jean-Paul Sartre, 1944 . tradução mala voadora . direcção Jorge Andrade . com Anabela Almeida, Bernardo de Almeida, Jorge Andrade e Sílvia Filipe . cenografia José Capela . luz João d’Almeida . fotografia José Carlos Duarte
programa radiofónico de Orson Welles com o Mercury Theatre, a partir de "A Guerra dos Mundos" de H. G. Wells
Tal como as peculiares imagens do Oriente oferecidas pela chinoiserie, os bibelots são imaginativos. O seu interesse não está na possibilidade de serem fiéis àquilo que representam, mas na sua capacidade de originar representação. Podem ser individualidades ou lugares; ou então um ideal de beleza, um determinado imaginário ou uma referência afectiva. Os bibelots mantiveram o propósito figurativo ou alegórico quando a arte deixou de ser dominada por ele e, por outro lado, foram pioneiros na substituição das obras de arte como protagonistas da cultura visual. Os bibelots são banais e exemplares.
direcção Jorge Andrade . dramaturgia Jorge Andrade e José Capela . texto Miguel Rocha . com Anabela Almeida e Bruno Huca . vídeo Rui Ribeiro (com colaboração de Ricardo Sequeira e consultoria de Sérgio Aragão) . luz José Álvaro Correia . música Rui Lima e Sérgio Martins . direcção de produção Magda Bull . co-produção Maria Matos Teatro Municipal, O Espaço do Tempo, Citemor . apoios Comuna Teatro de Pesquisa, Teatro da Garagem
A mala voadora é uma estrutura financiada pelo Ministério da Cultura / Direcção Geral das Artes. A mala voadora é uma estrutura associada da Associação Zé dos Bois (ZDB).
do francês antigo, beubelet, reduplicação do belo
do alemão kitschen, fazer móveis novos à partir de móveis antigos
O termo surgiu por volta de 1870 no comércio artístico em Munique para designar objectos de arte feitos de propósito para satisfazer a procura de uma nova clientela endinheirada. A partir deste contexto, a palavra evoluiu pejorativamente no sentido genérico de arte de imitação e de mau gosto e é associada à abundância e à não-funcionalidade.
1) objecto mágico; 2) objecto de veneração; 3) objecto de desejo
Depois de "Only You. Um espectáculo só para si. Um artista ao seu dispor" Dinis Machado. um artista ao seu dispor, inc.* volta a invadir a cidade com "unpackaged". Um pack de três peças para encaixar como quiser. Um programa de viagem sem visita guiada.
O programa começa dia 12 precisamente às 23h com "Vernissage Finissage" - uma inauguração fora de horas deslocada para o miradouro de S. Pedro de Alcântara constituindo-se como terceiro elemento de um projecto fragmentado. O corpo de trabalhos estará patente de
A Dinis Machado. um artista ao seu dispor, inc. deseja-lhe uma boa visita.
mais fotografias da mesma série, de José Carlos Duarte, em http://cultura.fnac.pt/galerias/exposicoes/a-j
chinoiserie Fanciful European interpretations of Chinese styles in the design of interiors, furniture, pottery, textiles, and gardens. The expansion of trade with East Asia produced a lively vogue for Chinese fashions in the 17th – 18th centuries. The most outstanding chinoiserie interior was the Trianon de Porcelaine (1670 – 71), built for Louis XIV at Versailles. The style featured lavish gilding and lacquering, the use of blue and white (as in delftware), asymmetrical forms, unorthodox perspective, and Asian motifs. In the 19th century, the fashion gave way to Turkish and other styles considered exotic. (in Britannica Concise Encyclopedia)
fotografia: Susana Paiva
Negócio Rua de O Século, 9 - porta 5 _ reservas 213 430 205
http://www.zedosbois.org/indexzdb.htm


Estamos em residência no Citemor, com vista à estreia no dia 14 de Agosto do espectáculo O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros (disse Brecht). Vai ser em Montemor-o-Velho, na sala B, às 22.30, e repete dia 15.1. título
Ao título O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros, acrescenta-se agora, no final: (disse Brecht). É melhor que fique claro que se trata de uma citação.
2. discursos políticos
O espectáculo é sobre retórica: sobre o modo como é composta a comunicação de um qualquer conteúdo.
Para abordar este tema, optou-se por utilizar alguns dos grandes discursos políticos da história, cujo conteúdo foi determinante em relação ao que tem vindo a ser o destino do mundo (ou de Portugal em particular): Salvador Allende, Yasser Arafat, Chiang Kai-Shek, Winston Churchill, Álvaro Cunhal, Dalai Lama, Charles De Gaulle, Josef Estaline, Fidel Castro, Patrick Henry, Imperador Hirohito, Adolf Hitler, Muhammar Kadhafi, Vladimir I. Lenine, Martinho Lutero, Martin Luther King, Nelson Mandela, Mao Tsé-Tung, Benito Mussolini, Napoleão I, General Patton, Yitzhak Rabin, Oliveira Salazar, Andrei D. Shakarov, Shimon Peres, Mário Soares, Elizabeth Stanton, Aung San Suu Kyi, Leon Trotsky (e, agora, um hit dos Beatles). Mas como é de retórica que se trata, e como não há discursos políticos sem retórica, os discursos utilizados foram equiparados e justapostos independentemente do que julgamos ser a pertinência ou a perversidade de cada um. É precisamente a sedução comunicativa de que pode ser dotado uma qualquer proposição (designadamente as proposições perniciosas ou as ingenuamente revolucionárias) que o espectáculo visa. No que se refere aos discursos, pretende-se que o espectáculo, por um lado, afirme a impossibilidade de ausência de retórica (impossibilidade que se torna particularmente evidente sempre que o público se identificar com os discursos proferidos) e, por outro, evoque o perigo de uma relação entre o exercício político e o eleitorado reduzida à sedução produzida pela retórica.
3. pura retórica
Contra a possibilidade de uma arte de expressão objectiva ou isenta (na qual acreditaram alguns artistas conceptuais), Mel Bochner escreveu numa obra sua que “a linguagem não é transparente”.
Não só a linguagem é sempre retórica, como a retórica tem valor como conteúdo. O “modo de dizer” tem valor ideológico. Walter Benjamin enuncia esta possibilidade de modo claro na conferência “O autor enquanto produtor”: a técnica (ou a linguagem) utilizada numa determinada obra tem um valor ideológico na medida em que implica – ou reflecte mesmo – um determinado posicionamento face ao contexto produtivo da arte. No que respeita ao teatro, Benjamin toma como referência Brecht e o efeito de estranhamento, propondo assim a oposição dialéctica entre “o que se reconhece” e “o que se estranha” como estratégia privilegiada de crítica.
O espectáculo O decisivo na política... desenvolve-se abandonando este tipo de oposição dialéctica, a favor da autonomia da retórica. Abandona-se a discursividade própria dos discursos políticos (aquilo que, no espectáculo, se reconhece) para instalar em cena um outro tipo de discursividade: aquela que pode residir numa retórica desligada do que é reconhecível. No final, o sentido crítico, ou político, do espectáculo advém deste alheamento em relação ao universo lógico e factual no qual se inscreve o exercício da política tal como o re-conhecemos.


©Tom Hoy. All rights reserved Tom Hoy, then a staff photographer with the Washington Star, took a big gamble when he decided to stay at his behind-the-podium vantage point when President John F. Kennedy came to speak at the DC National Guard Armory in 1962. All Hoy's colleagues went 'round front to make the standard speaking-from-the-lectern shot. But Tom, sensing that the arena lights – and the photo gods – might favor him, got off this perfect, emblematic shot right before the Secret Service ushered him away. The pic has been published worldwide.
www.washingtonpost.com
a propósito da programação de dança do Rivoli (e um pouco mais) . publicado em Cadernos Rivoli nº 4, 2004 . obrigado Cristina, pelos espectáculos e pela oportunidade de publicar o texto
1.
2. Como no teatro (mais habitualmente no que respeita à interpretação ou à exibição do improviso) ou no cinema (mais habitualmente no que respeita à narrativa), julgo que na dança a expressão da dor, por si mesma, é redundante. Desprezo a ideia fascista de "arte degenerada", do mesmo modo que não encontro qualquer interesse na pura expressão de estados psíquicos dolorosos. O movimento do corpo pode sustentar modalidades expressivas de grande síntese (potencialmente mais sintéticas do que a construção de discurso ou de uma narrativa), mas quando o nível da expressão compulsiva do eu não é ultrapassado, a síntese toma a forma da mera "coreografia psicanalítica": o mergulho no inconsciente, através do mais empobrecido auto-centrismo, dá – afinal – azo à alienação da comunicabilidade (a comunicabilidade pressupõe a consideração do receptor). A temática do "corpo" é particularmente propícia à confusão entre arte e terapia emocional (o possível onanismo dos diários íntimos, psico-drama ou catarses várias).
3.
4. Lembro-me de ouvir alguém lamentar-se, no final do espectáculo Chinoiserie de Mathilde Monnier, apresentado pelo Rivoli no Ballet-Teatro em 1995, relativamente à falta de rigor da interpretação da coreógrafa/bailarina. De facto, o mais relevante do espectáculo não seria o virtuosismo. Assistiu-se, em dois tempos consecutivos, aos movimentos de alguém que, como se estivesse em sua casa (não sei se o tapete que ocupava o pavimento, único elemento do "cenário", tinha o propósito de recriar um espaço doméstico), parecia entreter-se precisamente a experimentar esses movimentos, primeiro sem, depois com a inter-acção de uma lanterna fixa a uma coxa. Pareceu-me esta elementaridade emocionante. Tomei esta (pelo menos aparente) espontaneidade como um manifesto sobre a possibilidade de comunicação em dança.
(O magistral Once de Anne Teresa De Keersmaeker, recentemente apresentado no Rivoli, apesar das devidas diferenças, também tinha um pouco este tom.)
5. [...] antes de perguntar: como se relaciona a poesia com as relações produtivas da época, gostaria de perguntar: como se situa nela? O objectivo imediato desta questão é determinar a função que a obra assume nas relações de produção da escrita numa época. Por outras palavras, o seu objectivo é a técnica escrita da obra. Designo o conceito de técnica como aquele que, nos produtos literários, torna acessível uma análise imediata e materialista da sociedade. (1)
6.
Revelar a fenomenologia do acontecimento cénico não será nada de surpreendentemente novo. No âmbito das "artes plásticas", e como culminar de uma genealogia que remonta à década de 10 do século XX, a revelação dos mecanismos inerentes à prática artística que, por tradição, permanecem invisíveis (quer os de natureza física/instrumental que são escrupulosamente ocultados, quer aqueles de ordem abstracta, designadamente institucional, implicados na prática e no consumo da arte) ou a evidência da dimensão sensitiva da comunicação através da obra são atributos da arte conceptual dos anos de 1965-1975. Mas se os dois espectáculos de Olga Mesa parecem estar próximos deste objectivo, verifica-se que neles se produz uma deslocação, do âmbito mais estritamente analítico, para o âmbito do afecto. Artistas/intérpretes e público tornam-se, nestes espectáculos, o centro de situações que (muitas vezes despoletadas pela locução intimista, sem pathos, da própria criadora, como se de uma conversa se tratasse) fazem coincidir a desnudez/consciencialização dos aspectos técnicos (a técnica, segundo Benjamin) do espectáculo, com a dimensão emocional dos seus agentes. O que é apresentado ao público não constitui, nem uma – extremada – dissecação desconcertante dos fenómenos, nem uma tentativa de criar uma – extremada – empatia ingénua entre emissor e receptor. Em vez disso, o público é levado à experiência sensível do fenómeno-espectáculo: é levado a re-vivenciar a experiência do espectáculo – naquilo que de mais banal ela possa conter – intensamente. Interior/exterior da sala, interior/exterior da cena (entre ver e ser visto), executante/observante, directo/diferido, fazer/mostrar, entre outras dicotomias, transformam-se assim em lugares de afecto. E podem juntar-se-lhe outras dicotomias: memória/acção individuais, grave/terno, pudor/exposição, público/íntimo, epiderme/miniatura,... au fond tout est en surface.
José Capela
NOTE 43:
A comunicação política destinada às massas reveste-se de grandes preocupações de ordem performativa. Quer em situações nas quais o contacto com o eleitorado é directo, como um comício, quer quando esse contacto é tão mediado como num tempo de antena de campanha eleitoral, trata-se quase sempre de construir um espectáculo de imagens e sons no qual o discurso propriamente dito é um componente. Adquirem uma importância determinante todos os recursos que permitem compor a comunicação e – esse é o seu objectivo – optimizar a capacidade persuasiva dessa comunicação. Se no âmbito artístico a verosimilhança foi amplamente relativizada enquanto valor, pelo contrário a comunicação política é cuidadosamente montada com vista à verosimilhança e à persuasão. É decisivo na política, mais do que na arte, que a comunicação seja apresentada, não só como verdade, mas também como uma verdade sedutora e empolgante. E este é um efeito procurado pelos políticos independentemente das respectivas ideologias, ou seja, é um efeito que, no contexto político, tem um valor autónomo – o mesmo que tem no contexto da publicidade.
Tanto a eficácia do espectáculo político, como a eficácia da publicidade, vivem de uma relação entre realidade e ficção que tende a ser paradoxal: quanto mais astuciosamente idílica for a ficção, melhor ela é capaz de convencer o seu «público» a adoptar uma determinada convicção sobre a realidade. A verdade não é meramente aquilo que tem correspondência com o real, mas é sobretudo aquilo que é capaz de ter a aparência de verdade, ou até, no limite, aquilo que é suficientemente sedutor para afastar a questão do que é, ou não, verdadeiro. Quem é mais real? Che Guevara ou o Tio Sam? Platão ou o Robin dos Bosques?
Um objecto performativo, como qualquer produto artístico, pode ter uma dimensão política evidente. Recorrendo-se ou não à narrativa, é possível tomar partido de uma determinada facção ou de um ponto de vista, ou repudiar outros. Mas a dimensão política de um objecto performativo pode ser menos evidente. É o que se verifica quando se enunciam os constituintes de uma equação com dimensão social que não se destina exactamente a ser resolvida, mas antes a permanecer na fértil iminência de produzir sentidos múltiplos (equação na qual se inclui, não só o tema, mas também o modo de fazer o espectáculo). Então, cabe também ao público – o conjunto de receptores da obra – projectar-se de modo pessoal, interpretativo, nos conteúdos que a obra disponibiliza. Este último tipo de posicionamento pode ser identificado com o discurso “crítico” daqueles que, por um lado, pretendem despoletar a reflexão em torno da realidade (inalienavelmente política) e, por outro, não querem adoptar uma ideologia ou ser identificados com uma moral (moral ou ideologia querem ser aceites, não querem ser questionadas). É um lugar comum desse discurso dizer-se que, através dele, se pretendem colocar questões para as quais não se fornecem respostas.
Arte não é propaganda. Mas também nunca é politicamente neutra. Por um lado, nenhum produto artístico, mesmo que muito questionante, é isento de convicções ou de crenças. Como nenhuma pergunta o é. Ideologia não é apenas «esquerda» e «direita», mas também, por exemplo, «reaccionário» e «progressista» (designações, tal como a frase de Brecht que dá título a este projecto da mala voadora, usadas por Walter Benjamin). A reflexão crítica cumprida especificamente no âmbito operativo da arte assenta no equilíbrio entre uma certa objectividade ontológica e a evocação especulativa de sentidos. Por outro lado, se não for através do conteúdo, os produtos artísticos serão políticos no que se refere ao lugar institucional que ocupam (apesar de a exótica ideia de “autonomia da arte” pretender não considerar este facto).
Acreditamos que a prevalência atribuída à construção da identidade pode ser um fenómeno coincidente com a conquista de liberdade individual e com o enfraquecimento das instituições tradicionalmente responsáveis pela definição autoritária de modelos de comportamento. O estabelecimento público de valores comportamentais parece ser agora, de facto, mais fragmentário e debatido. Os reality shows (independentemente de todo o tipo de manipulações a que estão sujeitos) reflectem de modo massificado esse fenómeno. Por um lado, vivem da singularidade dos participantes (muitas vezes levada até ao ponto da bizarria). Por outro lado, são lugar de confrontos de opinião – tanto entre os protagonistas, como entre os comentadores ou facções da audiência – sobre posturas éticas, liberdades, diferenças, ou outros aspectos de ordem comportamental. Ainda que com uma dimensão crítica diminuta, também aqui a exibição do quotidiano e do íntimo é directa e despudorada. E também aqui o jogo assenta na exacerbação da construção de uma identidade.
As próximas produções da mala voadora terão como tema a identidade e constituirão um ciclo designado single. Mais do que tomar o partido de uma qualquer tese sobre a identidade, pretendem criar-se situações especulativas em torno, designadamente, dos seguintes aspectos:
a ideia de “verdade”
A aproximação à “verdade” no âmbito da literatura e das artes performativas, ou de outras artes, não é um valor em si mesma. Mais interessante parece-nos um conceito tão artificioso como o de “verdade”. Pretendemos ampliar as anomalias daquilo que é banal ou verosímil.
a autobiografia como conteúdo artístico
O facto de existir um importante limite entre o que é importante para um indivíduo (o tipo de conteúdo afectivo que preenche amizades e diários íntimos) e o que interessa aos receptores de um produto artístico será tratado através de situações em que o protagonista de cada espectáculo se confronta com a falta de interesse que nele (também) existe, em contraste com o interesse que o seu contexto social simultaneamente pode demonstrar.
a autonomia do indivíduo
À individualidade irá contrapor-se a reflexão do “eu” no “outro”, ou aquilo que é comum a muitos.

Estão previstos os seguintes 4 espectáculos (3 dos quais serão solos):
O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros.
A frase que intitula este projecto é, de acordo com Walter Benjamin, da autoria de Brecht. O espectáculo, sobre a natureza e a verosimilhança do “eu” político, terá o formato de um comício. Oscilará entre a colagem absurda de discursos políticos reais e a referência a algumas d’as 101 pessoas mais influentes que nunca existiram (de acordo com os norte-americanos Allan Lazar, Dan Karlan e Jeremy Salter). Pretendem usar-se os recursos próprios da espectacularidade política. Esta co-produção com a Galeria Zé dos Bois será desenvolvida em residência, e apresentada, no Negócio. Tem estreia prevista para dia 11 de Julho, no Auditório do Museu de Serralves, no âmbito do projecto Mugatxoan.
O Duplo
Adoptou-se o título do livro de Fiódor Dostoiévski que constitui ponto de partida do projecto. Um homem sofre um processo de duplicação e vê-se sujeito a conviver com o seu duplo. No espectáculo, é projectado um vídeo que recria a narrativa de Dostoiévski. O protagonista, também presente em cena, dialoga com a projecção, realiza instalações e executa pequenos números que complementam a narrativa. Esta co-produção com a Galeria Zé dos Bois será desenvolvida em residência, e apresentada, no Negócio.
Ele foi Mattia Pascal
Adoptou-se o título do livro de Luigi Pirandello que constitui ponto de partida do projecto. Narra-se a vida de alguém a partir do momento em que é dado como morto.
single
O espectáculo que tem o mesmo título que o ciclo é sobre o comportamento solitário. É o único que não é um solo. O processo de trabalho de single será iniciado por uma socióloga convidada que produzirá um questionário e realizará um conjunto de entrevistas. O ridículo, o estupidamente íntimo, as vicissitudes do corpo, o escatológico, enquanto aspectos impregnados no quotidiano, poderão constituir matéria propícia à manipulação dramatúrgica.
De 9 de Abril a 17 de Maio, a Galería Pilar Parra & Romero em Madrid expõe uma obra da artista galega Amaya González Reyes. Chama-se "Yo Gasto" e reúne ampliações em tela, impressas à mão, de facturas correspondentes a todas as despesas feitas pela artista durante o tempo em que a obra foi produzida.A mala voadora foi fundada por Jorge Andrade e José Capela, responsáveis pela direcção artística da companhia. Apresentámos o nosso primeiro espectáculo em 2003 e, desde então, produzimos 10 espectáculos, 4 dos quais subsidiados pelo Ministério da Cultura. Nas 3 primeiras produções trabalhámos com os encenadores Rogério de Carvalho, João Mota e Miguel Loureiro. Ainda partindo de um texto dramático, o espectáculo seguinte, Os Justos de A. Camus, foi encenado por Jorge Andrade (menção honrosa do Prémio Madalena Azeredo Perdigão 2004, atribuído pela F. C. Gulbenkian), fazendo coincidir as tentativas do grupo de revolucionários de levar a bom termo o ataque terrorista com as tentativas dos actores de ensaiarem a peça. Desde então ainda não voltámos a adoptar uma peça de teatro como ponto de partida para fazer um espectáculo. Se, quando se parte de uma peça, a dramaturgia tende a traduzir-se em matizes interpretativos e poéticos desenvolvidos em torno desse texto (ou paralelamente a ele), temos ensaiado antes a partir da diversidade das relações que podem ser estabelecidas entre, por um lado, as temáticas que pretendemos transportar para a cena e, por outro, o tipo de procedimentos a adoptar com vista à definição do espectáculo. Juntamente com cada tema, definimos uma maneira de fazer, um enunciado operativo que tenha ele próprio um significado dramatúrgico convergente com esse tema. E em função disso, escolhemos a especificidade profissional dos membros de cada equipa de trabalho, e chegamos a um dispositivo cénico adequado à resolução formal do espectáculo.
Em philatélie partiu-se de uma pequena colecção de selos; uma historiadora investigou sobre vários deles, produziu-se um texto e o espectáculo foi operado ao vivo, tendo como protagonistas os próprios selos. Em projecto de execução partiu-se da relação de amizade entre um grupo de 3 mulheres (mais concretamente, do registo de uma série de 3 jantares entre elas) para enunciar e experimentar, no espectáculo, as várias dimensões sensitivas da realidade e da sua deslocação para a cena.
Não procuramos que os vários espectáculos apresentem, entre si, uma unidade formal. Focar a criatividade em enunciados operativos, na invenção de modos de fazer, faz com que a linguagem tenda a ser uma mera consequência das decisões de ordem dramatúrgica. Não nos interessam as linguagens, nem as limpas, nem as sujas. E permite também abandonar as hierarquias relativas aos constituintes do espectáculo. O texto, por exemplo, pode constituir ponto de partida, pode resultar do processo de trabalho ou pode nunca chegar a ser necessário. O mesmo é verdadeiro no que respeita à cenografia, à luz, ao vídeo, à música, aos figurinos, ou a qualquer outra coisa que se revele pertinente num determinado projecto. Em todos os trabalhos, começamos sempre por definir o tema com objectividade, ainda que não pretendamos que essa objectividade conduza a “espectáculos de tese” e ela sirva apenas de suporte ou de estrutura ao processo criativo. Muitas vezes começamos por uma fase de recolha de informação que pode ter uma duração e uma importância significativas. Os “ensaios de mesa” tendem a prolongar-se. As sessões colectivas de trabalho servem mais para chegar à ideia de formalização do espectáculo do que, já na cena, para ensaiar a partir de uma ideia preestabelecida ou do puro improviso. Por isso, a fase de ensaios de mesa tende a prolongar-se até ao ponto em que o espectáculo já está esboçado. Às vezes, depois disso, quase nada resta senão executar o que se definiu. (Nem sempre é assim: quando fizemos o espectáculo desempacotando a minha biblioteca, tudo, e designadamente o texto, foi decidido a partir de continuadas experiências de representação.)
Sabemos que o teatro dito independente (como a arte em geral) é consumido por uma franja de público quantitativamente insignificante. Não lhe cabe mudar o mundo, nem propiciar a redenção. Genericamente, interessa-nos fazer um teatro que tenha a ver com o quotidiano, nas suas dimensões política e afectiva. Preferimos o confronto com o que é real à fuga para zonas mais fantasiosas ou nostálgicas, à exacerbação de universos pessoais, ou à abstracção metafísica. E preferimo-lo a temáticas centradas no próprio teatro, e a processos de sublimação ou desconstrução do fenómeno teatral. O teatro é para ser usado e não afirmado. Assim como não acreditamos num teatro sem teoria, também não nos interessa encontrar uma qualquer “essência” que defina o teatro. A nossa definição de teatro é remetida para aquilo que resultar da adopção dos materiais ou processos que, no momento, nos parecerem social e artisticamente pertinentes. Esse alheamento em relação aos protocolos da prática do teatro (tendencialmente conservadores) tem sido também um modo de criar, no interior dessa mesma prática, um campo de teorização. Em vez de o definir, interessa-nos confrontar o teatro com as contingências da produção cultural genérica que contextualizam e condicionam a sua prática e a sua leitura. A iconografia (em philatélie), a espectacularidade da violência e das catástrofes (nos vários hard), ou o conteúdo dos livros (em desempacotando a minha biblioteca) são exemplos de ingredientes da cultura alargada (designadamente visual) na qual se inclui o teatro enquanto comunicação. Tem sido essa a nossa ideia de auto-reflexividade, baseada na constatação de que a realidade que contextualiza o teatro enquanto prática é a mesma do quotidiano de onde provêm os temas adoptados nos projectos.
À maneira de Brecht, a arte deve confrontar-se com a banalidade do seu tempo.